quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Nitratos e a performance desportiva

O óxido nítrico (NO), é uma molécula de sinalização celular que tem a capacidade de regular o músculo-esquelético de várias formas:1) regulação da pressão arterial, 2) homeostase do cálcio e glicose, 3) respiração e biogénese mitocondrial.

Anteriormente pensava-se que o NO derivava apenas da reacção catalizada pela oxido nitrico sintase (NOS), tendo como precursor o aminoácido arginina, e que os metabolitos resultantes seriam, nitratos (NO3- ) e nitritos (NO2-) seriam produtos inertes e que não teriam qualquer tipo de actividade.
No entanto, estes metabolitos podem ser reciclados e transformarem-se em óxido nítrico activo em condições fisiológicas específicas. As reduções de NO3- a NO2- e subsequente a NO ocorrem em condições de hipoxia no músculo, ou seja, durante o exercício físico.
As concentrações musculares de NO3- e NO2- podem estar aumentadas devido aos hábitos alimentares. Os vegetais contem cerca de 60-80% do NO3- ingerido, vários tipos de vegetais são ricos neste anião (ver tabela)
[NO3-] mg/100g peso fresco
Vegetais
Muito elevado            > 250
Beterraba, espinafres, alface, rúcula, aipo, agrião, salsa
Elevado                    100-250
Aipo, erva doce, alho francês, endívias, coentros
Médio                         50-100
Couve, nabo, funcho
Baixo                             20-50
Brócolos, cenouras, couve flor, abobora, pepino
 Muito baixo                    <20
Espargos, cebola, cogumelos, ervilhas, pimentos, babata, tomate, batata doce

A ingestão inorgânica de NO3- é rapidamente absorvida e passa para a circulação sistémica aumento rapidamente as concentrações séricas de NO2-, cerca de 60% dos nitratos são excretados pela urina e 25% entram através da circulação salivar. Na boca as bactérias anaeróbias (NO3 redutases), reduzem o NO3- a NO2- e por último em NO. Outras espécies intermédias de NO são produzidas no suco gástrico, todavia parte do NO2- absorvido resulta num aumento das suas concentrações séricas  2-3 horas após a sua suplementação com NO3-. A reacção final de NO2- para NO é potenciada em ambientes de hipoxia e ácidos, ou seja, o ambiente que ocorre durante a realização do exercício (ver figura).

Estudos recentes evidenciam que o aumento da concentração plasmática de NO2- está associado a uma melhor eficiência muscular, traduzindo-se no aumento da resistência à fadiga e logo, na manutenção da performance por mais tempo.
Estudos iniciais utilizaram nitrato de sódio (NO3-Na) para aumentar as concentrações de NO2-, todavia, a suplementação com este produto parece estar relacionado com a incidência e prevalecia do cancro gástrico.
Grande parte dos solos estão contaminados com nitratos utilizados durante o cultivo, pelo que o Comité Olímpico Internacional recomenda apenas a utilização de sumo de beterraba, que contem as mesmas quantidade de NO3- , sendo ingerido de uma forma mais natural. Todos os estudos apresentados têm como base 500ml de sumo de beterraba.

Os relatórios dos estudos demonstraram que a suplementação com NO3- reduziram o gasto de oxigénio para a mesma intensidade de exercício, todavia, não ocorreram alterações nas concentrações de lactato, frequência cardica e frequência respiratória. A duração dos vários protocolos varia entre 3 e 15 dias; em todos eles o seu benefício mantem-se de igual modo. A suplementação de NO3- aumentou a tolerância ao esforço de 16% em ciclistas, 25% em exercício de força (extensão da perna) e 15% na corrida em tapete. Em atletas de elite estes resultados não foram significativos, apenas aumentou 2% na performance, no entanto, ocorreu uma redução de 4% do Vo2 para a mesma intensidade de esforço. É possível que o benefício dependa do status do atleta, exercício, modalidade ou tipos de treino.

A dose da suplementação deve ser de 0,1-0,2mmol/kg (6,2-12,4mg/kg), o que resulta num aumento da concentração plasmática 2 a 3 horas apos a ingestão. Recomenda-se a utilização de 500 ml de sumo de beterraba que contem aproximadamente 5-6mmol de NO3-.