sexta-feira, 18 de julho de 2014

Suplementos: uma verdade (In)conveniente

Por:  Marco Pereira e Catarina Elias
A utilização de suplementos alimentares é uma questão que divide opiniões.
O recurso a suplementos alimentares para tentar melhorar a performance é uma realidade no mundo desportivo. No entanto, antes desta opção ser equacionada, os atletas, e treinadores, devem ter em consideração que a segurança, legalidade e eficácia podem não estar asseguradas, o que pode comprometer a elegibilidade e reputação do atleta. O controlo dos suplementos dietéticos poderá não ocorrer com a exigência pretendida e idealizada pelos consumidores.
 

Os suplementos alimentares estão regulamentados pela directiva comunitária 2002/46/CE, com alterações pela Directiva 2006/37/CE da Comissão de 30 de Março estipulada pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (AESA), e transposta para direito nacional pelo decreto de lei nº136/2003, de 28 de junho e pelo decreto-lei nº296/2007 de 22 de agosto. Em Portugal o Gabinete de Planeamento e Politicas (GPP) pertencente ao ministério da Agricultura é a entidade responsável pelas medidas políticas relativas à qualidade e segurança alimentar, nomeadamente regulamentação e controlo dos suplementos alimentares. Todos os fabricantes ou comerciantes responsáveis pela introdução no mercado dos suplementos devem contactar o GPP antes de iniciar a sua comercialização.
 
A veracidade da rotulagem dos suplementos dietéticos é outra questão a considerar. Se esta não for investigada por terceiros, poderá existir uma discrepância entre a quantidade de um ingrediente que o suplemento contém e o que está descrito no rótulo. Esta situação poderá traduzir-se em dois casos: se um ingrediente existir em maior quantidade poderá constituir um perigo para a saúde; em menor quantidade apresentará numa menor eficácia do que o esperado. Para além disso, mesmo não existindo adulteração (propositada ou não), existe ainda a possibilidade de contaminação que só poderá ser descartada se houver investigação.
Em relação à eficácia, o produtor ou distribuidor de suplementos não precisa de comprová-la, ao contrário do que acontece com os medicamentos.
Deste modo, não existindo verificação independente, não há garantia quanto à veracidade da rotulagem e pureza do suplemento. Verifica-se a mesma incerteza quanto à segurança ou eficácia de um suplemento, já que é difícil assegurar que tenham sido efectuados estudos, uma vez que tal é da responsabilidade dos fabricantes. Produtos que foram testados por terceiros costumam anunciá-lo, informando assim o consumidor, sendo também relevante numa perspetiva de marketing.
Os alimentos têm maior valor nutricional comparativamente às suas versões em pó ou cápsula e na maior parte dos casos as vitaminas e minerais em alimentos são melhor absorvidas do que quando ingeridas em suplementos. Através da alimentação é difícil existir um consumo excessivo de nutrientes, o mesmo não acontece quando se fala de suplementação, ou quando existe um grande consumo de alimentos fortificados. É essa a razão pela qual surgiram os limites máximos considerados como seguros para a ingestão de nutrientes. Assim, quando o objetivo é melhorar a performance, a nutrição adequada e a modificação da dieta deverão ser consideradas como a primeira abordagem a implementar.
 
Os produtos que os atletas estão a considerar utilizar, deverão ser avaliados por entidades independentes quanto ao nível de pureza, segurança e eficácia, uma vez que o nível de regulamentação desta indústria não é tão elevado quanto o desejado. Atualmente, existem vários recursos que disponibilizam estas informações.
 
Numa investigação (Geyer H, et Al 2004), que teve como objectivo avaliar o nível de contaminação de esteroides anabolizantes em cerca de 634 suplementos oriundos de diversos países (Estado Unidos, Alemanha, Reino Unido, Holanda, Itália, França, Suíça, Noruega, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Áustria, Finlândia e Portugal), concluíram que 14,8% dos 634 suplementos estavam contaminados com substâncias proibidas.
 
Apesar de serem vendidos de forma legal, os suplementos poderão conter substâncias proibidas. Assim, tendo em consideração que, segundo o código da WADA (World Anti-Doping Agency), os atletas são considerados responsáveis pela presença de substâncias proibidas no seu sistema, independentemente da forma como tal poderá ter acontecido, estes deverão ponderar se os alegados benefícios dos suplementos se sobrepõem aos riscos que lhes poderão estar associados.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Estratégias Nutricionais para as corridas de Trail


As corridas de montanha nos últimos anos tiveram um crescimento exponencial, sobretudo as distâncias superiores a 42km. Caraterizam-se por desenrolarem-se em topografias desafiadoras e por vezes em condições ambientais extremas.

Estas provas normalmente tem uma duração superior a 4 horas em que os atletas muitas vezes tem de ser autossuficientes. O consumo de energia durante a prova deve ser igual ou próximo do gasto calórico . Dispêndios superiores a 350kcal/hora durante períodos prologados de exercício (>6horas), resultam numa diminuição da performance. Este equilíbrio energético deve ser satisfeito pela quantidades e número de refeições adequadas à duração da prova.

Os atletas necessitam de consumir grandes quantidades de glícidos (vulgarmente chamados de hidratos de carbono), para fornecer energia ao músculo e ao sistema nervoso central, as recomendações para atletas ultramaratonistas actualmente varia de 7-12g/ dia. Sendo a maior parte proveniente dos glícidos complexos e de baixo índice glicémico (cereais integrais, leguminosas, frutas e produtos hortícolas), todavia quando as necessidades são elevadas é recomendado a utilização de suplementação (barras, gel, bebidas, entre outros).
 
As necessidades proteícas estão aumentadas, devido á sua oxidação durante o exercício prolongado. As necessidades diárias variam de 1,4 a 1,7g/kg ou seja um individuo de 70kg deve de ingerir entre as 98g e os 119g diárias de proteína

 Alem disso o esforço prolongado irá resultar numa depleção das reservas de glicogénio, portanto, a intervenção nutricional e o timing dos nutrientes são factores cruciais para a manutenção do rendimento dos ultramaratonistas. As refeições pré competição (3-4horas) devem de conter entre 200-300g de glícidos, devendo ser adaptada aos hábitos de cada atleta. Estes devem também fazer um ciclo de supercompensação de glicogénio nos dias que antecedem os eventos (10-12g/dia).
 
Durante o exercício prolongado, as fontes de glícidos exógenos são essenciais para manter a glicose sanguínea e o glicogénio muscular. A ingestão deve ser entre 30 a 60g/hora de exercício. Recentemente observou-se que a co-ingestão de proteína e glícidos numa proporção 4:1 resultou num prolongamento do tempo até à exaustão. No entanto o macro nutriente mais importante e que não deve ser negligenciado durante as provas são os glícidos.

A refeição pós exercício deve ser consumida nos primeiros 30 min após o término da prova, devendo conter grandes quantidades de glícidos de elevado índice glicémico para estimular a síntese do glicogénio assim como proteína (ver revista Março de 2013)

Os líquidos e os eletrólitos são factores importantes para o exercio de endurance. A perda de líquidos resulta numa diminuição do rendimento desportivo. Os atletas devem saber qual a sua taxa de sudorese, para que a ingestão seja próxima das perdas. As bebidas devem de conter glícidos (frutose e/ou maltose e/ou glucose), e sódio (10-30mmol/litro), para melhor absorção e prevenção da hiponatremia.

Os alimentos escolhidos devem de fornecer a quantidade de energia e macro e micro nutrientes adequados, mas estes não devem de sobrecarregar o atleta com excesso de peso. Bebidas desportivas, géis, barras são suplementos convenientes para transportar e consumir durante as provas. Os atletas devem praticar estratégias de alimentação individualizadas utilizando uma combinação de alimentos integrais e de suplementos alimentares durante o treino para estabelecer se eles são bem tolerados nas corridas.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A suplementação com antioxidantes pode comprometer as adaptações ao treino.

Nos Estados Unidos da América cerca de 50% dos atletas de elite, 40% dos atletas não elite e 25% dos atletas de recreação, utilizam suplementos antioxidantes diariamente. Existe a ideia generalizada de que qualquer actividade física necessita desuplementação antioxidante. O principal argumento para esta recomendação é que qualquer aumento na actividade física é proporcional ao aumento da produção de espécies reactivas de oxigénio (ERO) e consequente destruição celular, originando uma diminuição do rendimento desportivo.

A prática de exercício físico aumenta a produção de ERO 2-4 vezes comparativamente a indivíduos sedentários; esta alteração do estado redox causa o denominado stress oxidativo nos músculos e outros tecidos, lípidos, proteínas e material genético.
A mitocôndria é o principal local da célula onde se dá a produção das ERO; cerca de 85% do oxigénio é consumido por este organelo. Durante a produção de energia, são utilizadas grandes quantidades de oxigénio para a respiração mitocondrial, sendo aágua o metabolito final. Durante este processo, alguns eletrões formam o RadicalSuperóxido (O2.-), o grande precursor de vários outros radicais livres: Peróxido de Hidrogénio (H2O2), Radical Hidroxiacil (OH.), Radical Peroxil (ROO.), Radical Alcoxil (RO.), entre outros. Oradicais mais importantes, apresentados por ordem de reactividade no organismo: O2.-< ROO. < OH.. O radical O2.- tem uma baixa reactividade celular comparativamente ao OH.ou seja, o OH. causa muitos mais danos celulares.
Existem dois tipos de sistemas antioxidantes: endógenos e exógenos. O sistema endógeno é intrínseco ao organismoou seja, as próprias células estão equipadas com um sistema de defesa antioxidante enzimático e não enzimático (principal agente antioxidante intracelular). Ver: tabela 1.
Antioxidantes Endógenos
Sistema Enzimatico
Sistema não Enzimatico
Superoxido Dismutase
Catalase
Glutationa Peroxidase
Glutationa redutase
Glucose-6-fosfato desidrogenase
Tioredoxina redutase
Glutationa
Acido úrico
NADPH
Coenzima Q
Albumina
Bilirubina

Os antioxidantes exógenos derivam principalmente da dieta (frutas, vegetais e cereais).
Antioxidantes Exógenos
Fonte
Vitaminas C

Vitamina E

Micronutrientes: Zinco e Selenio

Carotenoides (percursores Vit. A)


Polifenois
Meloa, citrinos, maçãs, morangos, brócolos, tomate, couve flor, espinafres
Frutos secos, sementes, cereais

Mariscos, cereais fortificados, iogurte, carne, figado, ovo

Fígado, batata doce, cenoura, abobora, (fruta e legumes de cor verde e amarela)

Soja, frutos secos.

Após o exercício, as concentrações das espécies reativas de oxigénio estão aumentadas; subsequentemente, o sistema antioxidante é activado para eliminar os radicais livres que foram produzidos durante o exercício.
O aumento das ERO induz uma diminuição da capacidade funcional do músculo, alterações histológicas (celular) e dor muscular. Inicialmente pensava-se que esta alteração do estado de redox seria prejudicial para o processo de treino e que prevenir as suas acções seria benéfico. Todavia, novas investigações têm demonstrado que as suas acções são benéficas, desempenhando um papel importante na regulação e transcrição de genes, ou seja, parece que as adaptações ao treino são reguladas pelo estado redox. Os dois factores de transcrição associados a estas adaptações são o NF-KB (factor nuclear), que é responsável pela transcrição de genes do sistema imunitário e inflamatório, e o factor AP1 (proteína activadora), que regula os genes responsáveis pelo crescimento e diferenciação celular. Adicionalmente, o aumento da produção de ERO promove a activação das enzimas antioxidantes endógenas durante o treino.

A produção de ERO durante o exercício é necessária para dar início aos processos adaptativos. Estes processos incluem a regulação das enzimas antioxidantes, sistema dano-reparação celular, redução dos níveis basais de ERO e redução dos danos oxidativos durante o exercício. Assim, o aumento do estado redox é proporcional aos processos adaptativos do treino.
As mais recentes investigações sugerem que a utilização de suplementos antioxidantes (vitamina C e E) pode ser prejudicial, suprimindo as adaptações ao treino e, assim, diminuindo ou mesmo prejudicando o efeito do treino no processo da biogénese mitocondrial (produção de novas mitocôndrias) e subsequente diminuição da performance.
Todavia, grande número destes estudos foi realizado em indivíduos sedentários ou derecreaçãoEste facto pode limitar a interpretação dos resultados, uma vez que a maioria dos atletas de elite que fazem suplementação também apresenta maiores volumes e intensidades de treino que os utilizados nos estudos.
Com base nos estudos sobre o efeito de vitamina E e/ou C no desempenho da performance e o equilíbrio redox, um consumo permanente de altas dosagens destas vitaminas não deve ser recomendado (vitamina C>90mg/dia e vitamina E >15mg/dia).Esta recomendação não deve ser confundida com a alta ingestão de legumes e frutas, que são considerados seguros e benéficos.


1.Sathya A, Siddhuraju P. Role of phenolics as antioxidants, biomolecule protectors and as anti-diabetic factors--evaluation on bark and empty pods of Acacia auriculiformis. Asian Pacific journal of tropical medicine. 2012;5(10):757-65. Epub 2012/10/10.
2.Goto S, Naito H, Kaneko T, Chung HY, Radak Z. Hormetic effects of regular exercise in aging: correlation with oxidative stress. Applied physiology, nutrition, and metabolism = Physiologie appliquee, nutrition et metabolisme. 2007;32(5):948-53. Epub 2007/12/07.
3.Nikolaidis MG, Kerksick CM, Lamprecht M, McAnulty SR. Redox biology of exercise. Oxidative medicine and cellular longevity. 2012;2012:407978. Epub 2012/10/11.
4.Nikolaidis MG, Kerksick CM, Lamprecht M, McAnulty SR. Does vitamin C and E supplementation impair the favorable adaptations of regular exercise? Oxidative medicine and cellular longevity. 2012;2012:707941. Epub 2012/08/29.
5.Yfanti C, Akerstrom T, Nielsen S, Nielsen AR, Mounier R, Mortensen OH, et al. Antioxidant supplementation does not alter endurance training adaptation. Medicine and science in sports and exercise. 2010;42(7):1388-95. Epub 2009/12/19.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Poderão os hábitos alimentares explicar o sucesso da elite africana?

Actualmente os atletas Quenianos e Etíopes detêm cerca de 90% dos records mundiais de todos os tempos nas disciplinas de meio fundo e fundo, bem como o top 10 do ranking mundial.
Existem variadas explicações para este sucesso: factores genéticos, economia de corrida, treino, condições ambientais ou as práticas alimentares.

Mais de 80% destes altetas são originários de duas tribos, a tribo Kalenji  que vivem no Quénia e a tribo Etiope originaria da Zona de Arsi. Ambas situa-se a altitudes superiores a 2000m, vivem da pastorícia e os seus hábitos alimentares pouco se alteraram desde o neolítico (9000ac).
Os regimes alimentares para atletas de endurance recomendam que a ingestão energética diária deve ser igual ao dispêndio. Estes regimes incluem:
·        6 a 10g/kg de peso corporal por dia de glícidos, essencialmente para repor o glicogénio muscular e hepático
·        1,2 a 1,7g/kg/dia de proteína, indicação esta superior ao recomendado para um homem adulto saudável, isto porque a taxa de oxidação é muito maior durante o exercício e a necessidades para síntese e reparação do tecido muscular também está aumentada.
·        As necessidades hídricas variam de acordo com o treino e condições ambientais, o intervalo recomendado para atletas de endurance é de 1 a 1,5 ml por cada caloria  ingerida.

Os atletas de elite africanos consomem diariamente 3000 a 3200kcal diárias, distribuídas pela seguinte forma:
ü  65%-75% de  glícidos, o que corresponde a 441-545g/dia (8,1-9,7g/kg/dia),
ü  12% de proteínas, o que equivale a 1,76g/kg/dia sendo 76% de origem vegetal
ü  23% lípidos (83g/dia), garantindo um bom aporte das vitaminas lipossolúveis e ácidos gordos essenciais.
O pequeno-almoço e lanches consistem em leite, papas de cereais (cozidas com leite ou agua com adição de mel ou açúcar), ovos e pão. As refeições principais  (almoço e jantar): massa, arroz, leguminosas, carne (apenas fornecida 2x/semana), vegetais e fruta. Cerca de 88% do total de energia ingerida derivava de fontes vegetais. Apenas 10% dos atletas inquiridos utilizam suplementos (glícidos, aminoácidos Bcaas e glutamina).
O total de água ingerida é de 3200ml, 1750ml derivam da água e os restantes 950ml dos alimentos ingeridos. É de salientar que estes atletas não fazem qualquer tipo de hidratação pré e durante o exercício e apenas um pequeno número ingerem líquidos apos o treino. A quantidade de agua ingerida diariamente é menor do que a recomendada. Os atletas podem ingerir pouca água, no entanto, com os alimentos que ingerem contem grandes quantidades de água as suas necessidade colmatadas.

Comparativamente às recomendações para os atletas de endurance, os atletas de elite africanos cumprem os intervalos recomendados com excepção da água ingerida.
Todavia comparativamente aos atletas de elite ocidentais,  existem diferenças significativas no tipo de alimentos ingeridos. Os atletas africanos consomem muito mais alimentos de origem vegetal (88%), garantindo um bom aporte de vitaminas e minerais, que são essências para a recuperação e manutenção da performance. A quantidade de gordura monoinsaturada e polinsaturada é superior, assim como a quantidade de glícidos. Os atletas ocidentais consomem cerca de 50% de glícidos da sua energia total ingerida o que é muito inferior aos atletas africanos. A quantidade de proteína ingerida pela elite africana é muito similar aos atletas de elite ocidentais, no entanto as suas fontes são completamente distintas. Cerca de 76% da proteína ingerida deriva de fonte vegetal enquanto nos atletas ocidentais a principal fonte é animal. O que traduz numa maior quantidade de gordura saturada ingerida.

Os hábitos alimentares podem ser ou não, a principal razão do sucesso dos atletas Quenianos e Etíopes. De facto a sua dieta é diferente dos restantes atletas. Se estas diferenças podem justificar o sucesso desta elite? São necessários mais estudos para responder a esta questão.

sábado, 1 de março de 2014

Importância do índice glicémico na nutrição desportiva.

Existem milhares de alimentos que são constituídos por glícidos (hidratos de carbono). Os glícidos podem ser classificados como 'simples' ou “ complexos ", considerando a sua velocidade de absorção.
A resposta à carga glicémica (concentração de glicose no sangue) depende da constituição do alimento ingerido. Para estudar estas diferentes respostas utiliza-se como alimento padrão, 50g de glicose; para o qual se considera uma resposta igual a 100% ou IG (Índice Glicémico)=100.
Por exemplo, quando pretendemos avaliar a resposta glicémica após a ingestão de 160g de arroz cozido (que contem 50g de glícidos), temos que comparar os resultados obtidos para o arroz com o alimento padrão (glicose). Posteriormente converte-se este valor em percentagem. Assim, o arroz cozido tem uma resposta inferior à glicose em 34%, logo o seu IG=66.
São considerados alimentos com IG elevado quando o IG > 70, e alimentos com baixo IG quando IG< 55. Os que se situam entre 55 e 70 são considerados alimentos de IG moderado.

O IG é uma ferramenta de educação nutricional valiosa em inúmeras áreas da nutrição clínica. A manipulação de alimentos de forma a reduzir o IG da dieta tem demonstrado uma melhoria no controlo da glicemia em pacientes com diabetes, redução da pressão arterial e valores séricos de lípidos. Também pode haver benefícios para o controlo de peso uma vez que glícidos com baixo IG parecem diminuir o apetite comparativamente aos alimentos com IG elevado.

Exemplos de Indices Glicémicos
Alimento
IG (glucose=100)
IG Elevado
IG>70
Puré de batata
Arroz Branco
Bebidas desportivas
Pão 
Flocos de milho
Melancia
86
83
78
78
77
72
IG Moderado~
IG=55-70
Weetabix
Refrigerante
Flocos de Aveia
Muffins
Batata Cozida
69
68
66
62
56
IG Baixo
IG<55
Massa integral
Laranja
Gelado
Banana
Mel
Feijão
Pão de Cereais
Iogurte
Allbran
Leite
51
51
50
50
46
36
34
33
30
20
Fonte: http://www.glycemicindex.com/

A manipulação do IG parece ser vantajoso na nutrição desportiva de forma a optimizar a disponibilidade de glícidos para o exercício. Esta particularidade é principalmente útil para actividades que envolvam exercício prolongado e de intensidade moderada.
Índice Glicémico e nutrição pré exercício
A ingestão de um refeição rica em glícidos no período pré-exercício ( 4 horas prévias), proporciona uma melhor manutenção da performance durante o exercício. Esta estratégia permite assegurar um aporte adicional de glícidos para ser transformado em glicogénio hepático ou muscular, ou para libertar-se gradualmente durante o exercício.
Todavia uma potencial desvantagem da ingestão de glícidos antes da actividade é consequente aumento dos níveis de insulina no sangue, que vai suprimir a utilização de gorduras durante o exercício prolongado. Isso faz com que o músculo esteja único e exclusivamente dependente da via glicolítica (utilização de glicogénio), provocando uma queda nos níveis de glicose sanguínea (hipoglicémia), durante os primeiros 30 min de exercício.
A maioria dos estudos demonstrou que a ingestão de glícidos na fase pré-exercício tem um impacto positivo na performance desportiva. No entanto, existe uma pequena percentagem de atletas que são sensíveis á utilização de glícidos neste período, Podendo sofrer de fadiga prematura causada pela hipoglicémia. Estes sintomas são mais frequentes quando a utilização de glícidos é feita durante a hora prévia ao exercício.
Inicialmente pensou-se que a utilização de alimentos com baixo IG poderia ter menos impacto sobre a glicémia e utilização de gordura durante o exercício, prevenindo desta forma o aparecimento da fadiga prematura. No entanto, as investigações nem sempre demonstraram este benefício, parece que a utilização de alimentos de baixo IG no período pré-exercício não oferecem beneficio comparativamente aos alimentos de elevado IG.
O factor mais importante para prevenir a fadiga prematura é o tempo que decorre desde a última refeição ao inicio exercício.
É importante referir que os elevados teores de fibra alimentar que os alimentos de baixo IG podem conter, podem diminuir a motilidade intestinal e resultar em distúrbios gastro intestinais relevantes para a manutenção da performance desportiva.
Também é necessário relembrar que as refeições pré-exercício não são as únicas oportunidades para os atletas de endurance abastecerem as suas reservas, as recomendações aconselham a sua reposição durante a actividade.
Índice Glicémico e nutrição durante o exercício
A ingestão de glícidos durante o exercício prolongado fornece uma fonte exógena de combustível, melhorando a capacidade de exercício e desempenho. Vários protocolos têm sido propostos (revista atletismo outubro 2013). Embora seja intuitivo que glícidos consumidos durante o exercício são facilmente digeridos e absorvidos para fornecer um rápido aporte de energia, a sua escolha deverá incidir sobre as bebidas e alimentos (gel,barras,isotónicos, entre outros),  que produzam uma resposta glicémica moderada a elevada.

Índice Glicémico e nutrição pós-exercício
No pós-exercício, a reposição das reservas de glicogénio é o principal objectivo dos atletas. O armazenamento do glicogénio hepático e muscular é influenciado pelo treino,  insulina, e pelo rápido aporte de glicose (janela de oportunidade). Tem sido proposto que os alimentos com elevado IG facilitam o reabastecimento das células musculares e hepáticas comparativamente aos alimentos de baixo índice glicémico. Todavia, não existe evidência sobre se este beneficio é causado pelo aumento da glucose sanguínea ou resposta da insulina ou de ambas.


Resumo e recomendações práticas:
1.    O Índice glicémico já é utilizado na nutrição desportiva, no entanto são necessários alguns cuidados na sua recomendação.
2.    A tabela de Índice Glicémico não se destina a fornecer um ranking completo das virtudes dos alimentos ricos em glícidos. Outras características são importantes, tais como: custo, sabor, constituição nutricional, conforto gástrico, entre outros. Escolher refeições e lanches de acordo com os objetivos e necessidades de cada situação.

3.    Alguns indivíduos ou situações podem beneficiar da escolha da refeição com baixo IG pré-exercício. Estes incluem os atletas que mostram uma resposta prejudicial à ingestão de alimentos de elevado IG antes do exercício (1 hora prévia), e que não necessitem de consumir glícidos durante a actividade. Nestes casos, refeições com glícidos de baixo IG, podem melhorar o desempenho através de uma maior disponibilidade de glícidos durante o exercício.

4.    A ingestão de glícidos durante o exercício físico minimiza o impacto metabólico da refeição pré-exercício. Devem-se escolher alimentos e bebidas ricas em glícidos com base em experiências bem-sucedidas anteriormente.

5.    Nos desportos de resistência, devem-se consumir glícidos regularmente durante todo o evento, (30-60 gramas por hora). A escolha deverá incidir sobre alimentos de IG moderado a elevado.


6.      Imediatamente após o exercício o atleta deverá consumir 1 g de glícidos/kg de peso corporal de alimentos com IG moderado a elevado. 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Efeito da dieta na função imunitária em atletas

Os atletas podem estar susceptiveis a doenças infecciosas do sistema respiratório, normalmente relacionadas com carências nutricionais e/ou excesso de treino. Um mecanismo explicativo poderá estar relacionado com o aumento da produção de espécies reactivas de oxigénio (stress oxidativo) associado a uma diminuição da função imunológica.

Dietas de baixo teor calórico (ingestão inferior ao gasto energético), baixo teor de gordura e de micronutrientes (vitaminas e minerais), podem comprometer as reservas energéticas intramusculares (glicogénio e gordura) e o sistema imunitário.

O exercício agudo e crónico podem alterar o número de células do sistema imunitário durante 24 a 48 horas após o treino. A monitorização do treino, a percepcão da fadiga, stress, episódios de infecções, qualidade do sono, dores musculares são indicadores que nos permitem avaliar o risco para o sistema imunitário.
O treino de grande intensidade é muito mais exigente, devendo a ingestão calórica igualar ao dispêndio. Carências nutricionais podem resultar na diminuição das reservas de glicogénio e gordura, com consequente redução da performance desportiva. Dietas com restrições inferiores a 20% de glícidos e 20% de gordura são insuficientes para manter os depósitos intracelulares e assegurar a função imunológica.

A glicose tem um efeito directo sobre o sistema imunitário. Especificamente, os baixos níveis de glicémia associam-se ao aumento de moléculas pró inflamatórias e hormonas catabólicas (cortisol, catecolaminas, entre outros).

O aumento do metabolismo oxidativo pode incrementar a produção de radicais livres de oxigénio. A suplementação com cofactores enzimáticos, tais como, ferro, zinco, cobre e selénio, assim como vitaminas antioxidantes: vitamina C, vitamina E e vitamina A, poderá ser benéfico no fortalecimento do sistema imunitário.

A suplementação com vitamina A (β-caroteno) deve ser 30mg/dia, enquanto que a suplementação com vitamina B12 é recomendado apenas para atletas com balanço energético negativo ou vegetarianos. A ingestão de vitamina C deverá ser feita nas 3 semanas prévias á competição, com uma dosagem de 1000mg/dia (doses maiores estão associadas a efeitos negativos tais como: diarreias, dores articulares e pedras no rim). A dosagem de 550mg/dia de vitamina E (α-Tocoferol), durante 50 dias, parece atenuar os efeitos negativos do exercício sobre o sistema imunitário.
A ingestão de alimentos ricos em zinco (marisco, carnes, cereais fortificados, iogurte) parece ser suficiente para atletas sem défices nutricionais. A suplementação está indicada apenas em atletas com défices energéticos negativos ou regimes vegetarianos aos quais se recomenda a ingestão de 10-20mg/dia deste micronutriente.
A ingestão de ferro, selénio e cobre deve ser satisfeita apenas com uma dieta equilibrada em alimentos ricos destes minerais (ver artigo: Alimentação como parte integrante do processo de treino). A sua suplementação apenas deverá ser realizada por recomendação clinica, devido às consequências negativas da sua sobredosagem.
A ingestão de baixos níveis de gordura está associada a uma diminuição do aporte de ácidos gordos essenciais (ómega 3), que tem um efeito anti inflamatório. Recomenda-se a sua suplementação, embora ainda não se conheça a curva de dose-resposta para os atletas.
Um desequilíbrio proteico negativo (balanço nitrogenado negativo), resulta na diminuição da resposta do sistema imunitário. Atletas em overtraining devem fazer a suplementação com proteínas durante 2-3 semanas.
Os atletas devem manter uma alimentação equilibrada, sendo a quantidade de calorias ingerida igual às dispendidas. As quantidades devem ser distribuídas de uma forma proporcional entre os macronutrientes (proteínas, glícidos e lípidos) e micronutrientes (vitaminas e minerais).

O comprometimento de qualquer um destes elementos pode associar-se a uma diminuição do desempenho físico bem como da expressão do sistema imunitário, contribuindo para o risco de infecções.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

HIPONATREMIA NO EXERCICIO

A hiponatrémia consiste na diminuição da concentração plasmática de sódio (Na+). Este é o maior catião existente no espaço extra celular, apresenta uma importante função na regulação dos fluidos corporais e pressão arterial. Esta função é realizada em conjunto com o potássio (maior catião intracelular) e o cloro (maior anião extra celular).




            Várias funções fisiológicas necessitam de sódio, tais como, a manutenção do equilíbrio acido-base, neurotransmissão e absorção de glícidos pelo transportador SGlut1 no intestino. As necessidades diárias recomendadas para um adulto são cerca de 1500 mg/dia (equivale a 3,8g de sal de cozinha). Devido a alteração dos hábitos alimentares a nossa ingestão é de cerca de 3000-6000 mg/dia (≈7g-15g de sal de cozinha por dia).


Na nutrição desportiva sabemos da importância do sódio nos diversos processos fisiológicos, no entanto, temos o conhecimento que estas necessidades diárias são atingidas e até superadas facilmente.




Em provas realizadas em ambientes quentes e com humidade relativa elevada, existe um aumento da taxa de sudorese com a perda de agua e electrólitos, principalmente o sódio, originando hiponatrémia ([Na+] plasmático=126-130mmol/L). A hiponatrémia pode apresentar um quadro sintomatologico muito similar ao estado de desidratação: fraqueza, confusão mental, sede, desmaio, entre outros.

           

A origem da hiponatrémia poderá ser causada por outros factores independentes das condições ambientais, intensidade e duração da competição ou exercício. Normalmente, os atletas aumentam o consumo de água nos dias anteriores á prova de forma a promover uma adequada hidratação. Assim, gera-se um balanço de fluidos positivo (hiperhidratação) necessário para optimizar a termo-regulação e, subsequentemente, garantir a manutenção da performance desportiva.

 Todavia, esta sobrecarga de líquidos é muitas vezes realizada à custa de fluidos com baixos teores de sódio, como por exemplo, agua e sumos. A ingestão deste tipo de líquidos induz o aumento da produção de urina, com perdas plasmáticas de sódio.


A depleção de sódio despoleta a libertação da hormona antidiurética (ADH-Vasopressina), responsável pelo contínuo estímulo da sede. Se a tendência for administrar mais líquidos de baixo teor de sódio para suprimir a sede, o estado de hiponatrémia vai ser perpetuado.


Num estudo, Maughan e seus colaboradores sujeitam vários os ciclistas a executar exercício em condições de temperatura de 32ºC com 54% de humidade, até perderem ≈2% do peso corporal. Após um período de 30 minutos de repouso, estes ingeriram 1,5 vezes o peso corporal perdido de uma solução com diferentes concentrações de sódio: 2 mmol/L; 26 mmol/litro; 52 mmol/L e 100mmol/L. A urina foi recolhida durante 5h30min. Observou-se que a produção de urina foi inversa á quantidade de sódio ingerido, ou seja, quanto maior a concentração de sódio menor a diurese. Constatou-se que as bebidas que continham entre 52 e 100mmol de Na+/L, resultaram num maior reposição do conteúdo de sódio plasmático, tendo sido a bebida que continha a solução de 100mmol/L, aquela que repôs os níveis iguais ao basal.




O sódio exerce um efeito positivo sobre o balanço hídrico durante as diferentes fases de hidratação, pré-exercicio, durante e pós-exercício. Isto deve-se a dois factores: 1) como a absorção de glucose no intestino é dependente de sódio, pensa-se que para alem de ser um potenciador da absorção deste açúcar a o sódio ajuda à absorção de água por transporte passivo; 2) previne a diluição da concentração de sódio plasmática, o que acontece quando apenas ingerimos agua.


Muitas vezes as marcas das bebidas desportivas promovem os seus produtos pela constituição de electrólitos (minerais). Até á data não existe evidencia sobre o benefício da adição de outros minerais para alem do sódio. No entanto, alguns estudos (Costill 1985), referem a hipomagnesémia (diminuição de magnésio plasmático), em triatletas de longa distância.




Maughan e colaboradores, demonstraram a menor importância de outros minerais (potássio, cloro e magnésio), comparativamente ao sódio. Analisaram o suor e urina após a realização de exercício físico e compararam as suas concentrações com as plasmaticas. Concluíram que as concentrações destes electrolitos estavam mais diluídas no suor, comparativamente com os seus níveis séricos. Esta diferença não foi observada para o sódio. Esta investigação sugere que a sudorese é responsável pela perda de água e de sódio.


Recomenda-se a ingestão de bebidas com concentrações de sódio para as diferentes fases:

  1. Pré treino ou pré competição => soluções entre 50-100mmol/L (29-30g/L de sal)
  2. Durante => soluções entre 10-30 mmol/L (0,6-1,8g/L)
  3. Pós-treino ou pós-competição => igual ao pré.


O problema é que grandes concentrações de sódio nas bebidas diminuem a palatilidade das mesmas. Normalmente adiciona-se glícidos para aumentar esta palatilidade que resulta numa maior absorção de glucose, sódio e água. No entanto, como já foi referido em números anteriores da revista, concentrações de glícidos> 10%, podem provocar distúrbios gastrointestinais durante o exercício, pelo que a sua quantidade nas bebidas deve ser controlada.


Após o exercício é aconselhável a ingestão de glícidos e sódio em forma sólida, porque estas apresentam maiores concentrações comparativamente ás bebidas.


Podemos concluir que a ingestão de bebidas que contenham sódio previnem a hiponatrémia. Já suplementação de sódio não previne o desenvolvimento da mesma, sendo o elemento mais importante de prevenção a quantidade de agua ingerida. Muita atenção com alguns suplementos desportivos que utilizam o glicerol para uma maior retenção de água, este foi banido pela Agencia Mundial de Antidopagem.